Cansei de ver Naruto ser descartado como 'aquele anime de criança que fica gritando o nome do golpe'. Não, gente.

O que me fez reler Naruto com outros olhos

Confesso que eu mesma fui culpada disso por um tempo. Assisti os primeiros episódios lá pelos anos 2000, achei fofo, segui em frente. Quando voltei, já adulta, com a série completa disponível, fui completamente derrubada. Naruto estreou em 2002 no Japão, tem mais de 700 episódios entre a série original e Naruto Shippuden, e carrega dentro dessa quantidade absurda de conteúdo uma discussão honesta sobre trauma, ciclos de violência, solidão e redenção. Não é pouca coisa. Eu escolhi esses cinco personagens com um critério simples: cada um deles me fez parar de assistir, olhar pro teto e pensar. Se um anime consegue isso, ele merece respeito.

Os 5 personagens que mudam a conversa sobre Naruto

1. Itachi Uchiha

Itachi é, na minha opinião, um dos personagens mais tecnicamente bem escritos de toda a história dos animes de longa duração. A revelação sobre o massacre do Clã Uchiha, apresentada em Shippuden, ressignifica absolutamente tudo que veio antes. Ele não é o vilão que parecia ser: é um homem que escolheu carregar a culpa do mundo para que o irmão mais novo tivesse uma razão para viver e crescer. Isso é escrita de roteiro de alto nível. Itachi prova que Naruto entende de antieróis de verdade, não de vilões requentados. Quando ele morre e a verdade vem à tona, a sensação é de luto real. Eu chorei. Não vou fingir que não.

2. Nagato (Pain)

Nagato é o personagem que mais me incomodou, no bom sentido. Ele argumenta, com lógica brutal, que a dor é o único professor que a humanidade respeita de verdade. E o pior: eu ficava entendendo o raciocínio dele. O arco de Pain em Shippuden, especialmente a destruição de Konoha e o confronto com Naruto, é um dos momentos mais densos que o anime já produziu. A conversa sobre ciclos de guerra e vingança que os dois travam ali em 2009, no anime, parece incrivelmente atual. Nagato não é louco, ele é uma vítima que decidiu se tornar o sistema que o destruiu. Isso dói de ver.

3. Gaara

Gaara é o espelho de Naruto mais honesto que a série tem. Os dois cresceram sozinhos, rejeitados, usados como armas pelas suas próprias aldeias. A diferença é que Gaara chegou ao ódio antes que alguém chegasse até ele. Quando o vemos na fase da infância, a frieza e a violência dele são perturbadoras, mas o contexto é tão bem construído que é impossível não sentir empatia. Vou ser honesta: a cena em que ele chora pela primeira vez, depois de ser derrotado por Naruto e entender o que é ter alguém que acredita em você, é uma das que ficam. Gaara depois se torna Kazekage e representa exatamente o que o anime quer dizer com redenção possível, mesmo quando tudo indicava o contrário.

4. Tsunade

Tsunade é consistentemente subestimada nas discussões sobre o anime, e isso me irrita. Ela é uma mulher que perdeu o irmão mais novo e o amor da sua vida na guerra, desenvolveu um trauma tão profundo que não conseguia mais olhar para sangue, e mesmo assim voltou ao campo de batalha quando foi necessário. Não por superação mágica, mas por escolha, com medo e tudo. Na minha curadoria, Tsunade entrou nessa lista porque ela representa algo que poucos animes shonen têm coragem de mostrar: uma pessoa poderosa que também está quebrada por dentro, e que funciona mesmo assim. Tsunade não cura o trauma, ela convive com ele. E isso é mais realista do que qualquer arco de redenção em cinco episódios.

5. Obito Uchiha

Obito é o personagem que divide mais opiniões e, talvez por isso, seja o que eu defendo com mais vontade. Muita gente achou a revelação forçada. Eu acho que é a mais humana de todas. Obito não virou vilão por poder ou ambição: ele viu a pessoa que amava morrer e decidiu que um mundo onde aquilo era possível não merecia existir. O plano Tsuki no Me (o plano da Lua), que ele passa décadas executando, é literalmente uma fuga coletiva para uma realidade onde a dor não existe. É distópico, é errado, e é completamente compreensível para quem já esteve em luto profundo. Obito é o lembrete de que o caminho entre a empatia e o fanatismo é mais curto do que a gente gosta de admitir.

E aqui no Brasil, onde você assiste tudo isso?

Naruto e Naruto Shippuden estão disponíveis no Brasil pela Crunchyroll, com áudio em japonês e legendas em português. O plano individual da plataforma custa cerca de R$ 19,90 por mês em 2026, e o catálogo de Naruto é completo, incluindo os filmes. Para quem prefere dublagem, parte do conteúdo também circula em canais de TV por assinatura. O fandom brasileiro de Naruto continua ativo e barulhento, especialmente no X e no TikTok, onde edits de Itachi e Pain nunca saem de moda. Vai por mim: se você parou no meio, vale retomar com esse olhar mais crítico.

Minha aposta e uma pergunta pra você

Eu acredito que Naruto vai continuar sendo redescoberto por novas gerações exatamente por causa desses personagens. Não pelo protagonista, que é carismático mas não é o mais complexo do elenco, e sim pelas pessoas ao redor dele, que carregam o peso real da narrativa. Minha aposta pessoal é que, à medida que o debate sobre saúde mental e trauma fica mais presente na cultura pop, Naruto vai ser relido com mais seriedade acadêmica do que tem hoje. E você, qual personagem de Naruto te pegou de surpresa pela profundidade? Me conta nos comentários.