Tem atuação que fica com você por anos, e nenhum troféu na prateleira para justificar isso.
Essa é minha frustração número um com os circuitos de premiação internacionais quando o assunto é dorama. O Emmy International reconhece formatos, o SAG ignora produções asiáticas quase por princípio, e o Baeksang, que é coreano e deveria ser a nossa bússola, às vezes premia o popular no lugar do transformador. Resultado: uma lista enorme de performances que ficaram sem reconhecimento fora da Coreia, ou dentro dela com menos do que mereciam. Estas seis eu escolhi com critério simples: são atuações que alteraram minha percepção do que atores de televisão conseguem fazer, e que teriam competido de igual para igual com qualquer coisa que venci o Emmy de drama nos últimos cinco anos.
As seis performances que a premiação internacional ignorou
1. Lee Joon-gi em Flower of Evil (2020)
Vou ser honesta: eu coloco essa performance no topo porque é a mais tecnicamente impossível que já vi num dorama. Lee Joon-gi interpreta um homem que simula emoções que não sente, enquanto, debaixo dessa máscara, algo começa a desmoronar. Ele precisa atuar em duas camadas simultaneamente, a fachada e o colapso interno, e faz isso com microexpressões que você só percebe no segundo episódio assistido. Flower of Evil teve 16 episódios, foi ao ar na tvN e não recebeu nenhuma indicação relevante fora da Coreia. É uma das maiores injustiças da década em termos de reconhecimento de atuação masculina em televisão.
2. Kim Hyun-joo em The World of the Married (2020)
The World of the Married quebrou recordes de audiência na Coreia, chegando a mais de 28% de share no cabo, o que na Coreia a cabo equivale a um fenômeno cultural. Kim Hyun-joo carregou uma série inteira nas costas interpretando uma mulher que descobre a traição do marido e recusa o papel de vítima. O que ela faz com o corpo, com a voz, com o silêncio é atuar no sentido mais completo da palavra. O problema é que 'mulher traída que se vinga' parece tema menor para quem distribui indicações internacionais, e por isso ninguém fora da Coreia falou sério sobre ela.
3. Oh Jung-se em It's Okay to Not Be Okay (2020)
Confesso que quando comecei a assistir It's Okay to Not Be Okay, fui pelo protagonismo de Kim Soo-hyun. Saí do drama completamente tomada por Oh Jung-se. Ele interpreta um homem adulto com deficiência intelectual de forma que você nunca sente artifício, nunca sente condescendência, nunca sente o ator 'fazendo esforço'. Há uma cena no episódio 12 que é, sem exagero, comparável a qualquer coisa que ganhou Emmy de coadjuvante nos últimos dez anos. Ele ganhou o Baeksang de ator coadjuvante naquele ano, que é justo, mas o reconhecimento deveria ter ido muito além disso.
4. Youn Yuh-jung em The Gentlemen of Wolgyesu Tailor Shop (2016)
Sim, Youn Yuh-jung ganhou o Oscar em 2021 por Minari, e foi merecidíssimo. Mas meu argumento é que o reconhecimento chegou décadas atrasado para uma atriz que já entregava atuações de nível internacional em televisão coreana muito antes disso. The Gentlemen of Wolgyesu Tailor Shop é uma série de 52 episódios que passou na KBS2, e a performance dela ali é de uma contenção e uma dignidade que poucos atores de qualquer país conseguem sustentar por tanto tempo. Eu uso esse trabalho dela como régua quando quero explicar o que significa presença de tela.
5. Park Hae-soo em Vincenzo (2021)
Na minha opinião, Park Hae-soo em Vincenzo é uma das atuações de vilão mais subestimadas da televisão recente, de qualquer país. Muita gente se lembra dele de Round 6, que estreou na Netflix em setembro de 2021 e entrou para a história como a série não anglófona mais assistida da plataforma até então. Mas o Jang Han-seok de Vincenzo foi antes, e é mais complexo: um herdeiro que brinca de ser inocente enquanto faz coisas impensáveis, e Park Hae-soo transita entre essas duas versões do personagem com uma leveza perturbadora. Nenhuma premiação internacional olhou para esse trabalho.
6. Im Soo-jung em Reflection of You (2021)
Termino com a performance que eu menos ouço pessoas citando e que mais me assombra. Im Soo-jung em Reflection of You interpreta uma mulher cujo ódio tem história, camadas e uma lógica interna tão sólida que você entende a vilã mesmo quando a detesta. A série passou pela JTBC com audiência modesta, o que provavelmente explica o silêncio premiativo. Mas modéstia de número não tem nada a ver com qualidade de atuação, e Im Soo-jung faz coisas com o olhar nessa série que me fizeram pausar a tela várias vezes só para processar o que tinha acontecido.
Onde assistir e quanto custa
Das seis obras citadas, Vincenzo e It's Okay to Not Be Okay estão disponíveis na Netflix, que custa a partir de R$ 20,90 por mês no plano com anúncios. Flower of Evil e The World of the Married estão na Viki, plataforma especializada em conteúdo asiático com plano pago a partir de aproximadamente R$ 25 mensais e opção de legendas em português. Reflection of You também está na Netflix. The Gentlemen of Wolgyesu Tailor Shop é o mais difícil de achar com legendas em português, mas está na Viki com legendas em inglês para quem quiser ir atrás.
O que eu espero que mude
O problema não é só que essas performances não ganharam prêmios internacionais. O problema é que elas raramente foram indicadas, o que significa que sequer entraram no vocabulário da crítica global de televisão. Enquanto as categorias de premiação continuarem sendo desenhadas por quem não assiste televisão fora do eixo anglófono, continuaremos tendo listas como essa, de talentos reais que o circuito oficial simplesmente não viu. Minha aposta: quando esse ciclo mudar, e vai mudar, Lee Joon-gi vai ser o primeiro nome que a história vai precisar revisitar.





