Tribunal coreano na tela é uma das experiências mais tensas que o dorama oferece, e vou defender isso com unhas e dentes.

Existe um preconceito silencioso de que dorama jurídico é 'aquele com muito diálogo chato'. Eu discordo completamente. O que os roteiristas coreanos fazem dentro de uma sala de audiência, especialmente a partir dos anos 2010, é construção de personagem acelerada, conflito moral explícito e virada de expectativa em ciclos de 20 minutos. É técnica. É ofício. E os seis títulos abaixo são, na minha opinião, os que melhor demonstram isso, cada um por um motivo diferente. Ordeno do sexto ao primeiro não por qualidade isolada, mas por impacto de roteiro crescente: o primeiro da lista ensina uma coisa, o último ensina tudo de uma vez.

Os seis, um por um

6. Defendant

Lançado em 2017, com 18 episódios, Defendant usa o tribunal como destino, não como cenário. O protagonista acorda sem memória, preso, acusado de matar a própria família. A premissa parece thriller de ação, e é, mas o que segura é a engenharia do roteiro: cada episódio recupera um fragmento que recontextualiza tudo que veio antes. A lição aqui é clara, informação revelada em dose certa transforma audiência em detetive. Confesso que assisti os primeiros quatro episódios numa única tarde sem perceber.

5. Suits (versão coreana)

Sim, é um remake do americano, lançado em 2018 com 16 episódios. Coloco aqui mesmo assim porque o roteiro coreano fez algo raro: pegou uma estrutura já conhecida e a tornou mais eficiente. Os argumentos jurídicos são mais curtos, mais visuais, e o mentor-aprendiz funciona melhor porque a hierarquia coreana dá peso real à relação. É o único remake de dorama que acho superior ao original em ritmo, e sei que isso é opinião impopular. Serve de aula sobre como adaptar sem copiar.

4. Vincenzo

Vincenzo não é um dorama jurídico no sentido clássico, e é exatamente por isso que ele entra nesta lista. O escritório de advocacia é o palco, mas o roteiro usa o direito como ferramenta de humor negro e de crítica institucional ao mesmo tempo. Estreou em 2021, tem 20 episódios, e a cena do julgamento do episódio 14 é, na minha visão, uma das sequências mais bem escritas de toda a era moderna do k-drama: ela subverte o que o espectador espera da lei sem nunca perder o fio da narrativa. A lição é sobre tom: comédia e tensão podem coexistir dentro de uma sala de audiência se o roteiro tiver estrutura sólida o suficiente.

3. Devil Judge

Aqui o roteiro faz uma pergunta desconfortável: e se o tribunal virasse entretenimento de massa, transmitido ao vivo para o público votar na sentença? Devil Judge, de 2021, com 16 episódios, é distopia jurídica, e funciona porque nunca abandona o personagem pelo conceito. O protagonista é moralmente ambíguo de um jeito que a maioria dos dramas evita, e o roteiro não resolve essa ambiguidade, sustenta ela até o fim. Aprendi mais sobre como construir um anti-herói crível assistindo a este dorama do que lendo qualquer manual de escrita criativa.

2. Extraordinary Attorney Woo

Lançado em 2022, com 16 episódios, Extraordinary Attorney Woo fez algo que eu não achava possível: tornou cada caso jurídico episódico um espelho do estado emocional da protagonista naquele momento. A advogada Woo Young-woo é autista, e o roteiro usa a lógica precisa e literal dela para desconstruir argumentos que parecem óbvios para os outros personagens, e para o espectador. O resultado é que você aprende direito e aprende a enxergar o mundo de outro ângulo ao mesmo tempo. É o dorama jurídico mais bem estruturado do ponto de vista da unidade temática: forma e conteúdo andam juntos em cada cena. No Brasil, está disponível na Netflix, que ainda o mantém no catálogo.

1. Juvenile Justice

Coloco Juvenile Justice no topo porque ele é o único da lista que usa o tribunal para forçar o espectador a rever uma opinião que ele tinha antes de ligar a televisão. Lançado em 2022 na Netflix, com 10 episódios, a série acompanha uma juíza que declara abertamente que odeia crimes juvenis e precisará julgar exatamente esses casos. O roteiro não resolve esse conflito interno com uma cena de redenção fácil. Ele acumula casos reais da legislação sul-coreana, cada um mais complexo eticamente do que o anterior, e vai desmontando tanto o preconceito da protagonista quanto o do espectador que concordava com ela no primeiro episódio. Isso é raro. A maioria dos roteiros quer que você goste dos personagens. Este quer que você se desconforte com as suas próprias conclusões. É aula de roteiro no sentido mais literal: demonstra que o objetivo de uma narrativa não é resposta, é pergunta bem formulada.

E no Brasil, onde assistir?

Dos seis, quatro estão acessíveis hoje com facilidade. Juvenile Justice e Extraordinary Attorney Woo estão na Netflix, com assinatura a partir de R$ 20,90 por mês. Vincenzo também está lá. Defendant e Devil Judge podem ser encontrados na Viki, plataforma com plano gratuito limitado e plano Viki Pass a cerca de R$ 25 mensais, com legendas em português em parte do catálogo. Suits coreano circula em repositórios de fandom com legendas feitas por grupos brasileiros, que mantêm qualidade razoável para quem não encontra via oficial.

O que esses seis têm em comum

Nenhum deles usa o tribunal apenas como cenário de fundo. Em todos, a audiência, o argumento, o veredicto, tudo isso é estrutura narrativa ativa. É o que separa um dorama jurídico mediano de um que você ainda pensa semanas depois. Roteiro coreano entendeu antes de todo mundo que a lei é drama humano codificado em regras, e que quebrar ou aplicar uma regra revela caráter melhor do que qualquer monólogo.

Minha aposta pessoal para o próximo grande dorama jurídico está num tema ainda pouco explorado pelo gênero: crimes ambientais corporativos com vítimas rurais. O material humano e legal está lá. Só precisa do roteirista certo.