Tem coisa mais frustrante do que amar um grupo e sentir que o melhor dele vive espremido numa subunidade de três pessoas?

Por que subunidade às vezes funciona melhor

Vou ser honesta: subunidade não é consolação. Quando funciona, é porque a empresa (ou os próprios artistas) percebeu que determinada combinação de vozes, conceitos e personalidades cria algo que o grupo grande não consegue sustentar sem perder o foco. É curadoria dentro da curadoria. E é exatamente esse critério que usei aqui: escolhi subunidades que têm identidade própria reconhecível, discografia com ao menos um projeto solo consistente e que, quando comparadas ao catálogo geral do grupo-mãe, se sustentam sozinhas. Não é ranking de popularidade, é ranking de força conceitual e execução.

As seis que eu defenderia numa discussão séria

1. EXO-CBX

Confesso que EXO-CBX é o meu caso pessoal mais fácil de defender. Chen, Baekhyun e Xiumin estrearam como subunidade em 2016 com 'Hey Mama!' e fizeram algo que o EXO completo raramente faz: soaram leves, quase despretensiosos, com produção que misturava synth-pop e swing sem forçar grandiosidade. O álbum 'BLOOMING DAYS', de 2018, é redondo do começo ao fim, coisa rara em qualquer projeto de K-pop. Na minha opinião, CBX tem mais coesão de álbum do que a maioria dos grupos de quarta geração ativos hoje. O grupo-mãe é enorme, icônico, mas EXO como unidade completa carrega o peso da própria história. A subunidade respira.

2. SHINee's Taemin (e por que ele conta como subunidade de si mesmo)

Taemin é membro do SHINee desde 2008, mas sua carreira solo construiu uma linguagem tão distinta, com estética dark, dança quase coreográfica-performática e produção que flerta com industrial e art pop, que tratá-lo como simples solista seria simplificar. 'MOVE', de 2017, é um dos singles mais bem coreografados da história do K-pop masculino. Coloco aqui porque o projeto solo dele é mais ousado e consistente do que qualquer fase do SHINee pós-2018. Isso não é demérito ao grupo: é reconhecer que Taemin encontrou um nicho que o grupo-mãe nunca habitaria.

3. MAMAMOO+ (Solar e Moonbyul)

MAMAMOO como grupo inteiro é excelente, então colocar a subunidade aqui exige justificativa. A justificativa é esta: Solar e Moonbyul juntas criam uma dinâmica cômica e musical que o quarteto completo dilui. A química das duas no palco é diferente da química que constroem com Wheein e Hwasa. MAMAMOO+ entrou em 2022 com o mini-álbum 'ACE' e mostrou que dá para ser irreverente com maturidade. É uma subunidade que funciona porque as duas se complementam de um jeito específico, não porque as outras duas sejam menos talentosas.

4. BTS Cypher (e o recorte rap-line)

Tecnicamente nunca foi lançada como subunidade oficial com nome fixo, mas RM, Suga e J-Hope como rap-line do BTS produziram faixas, mixtapes e projetos solos que, somados, formam um corpo de obra mais coeso e experimental do que grande parte do mainstream de hip-hop coreano. Coloco esse trio aqui porque a ausência de um nome oficial não apaga o fato de que cada um deles lançou projetos solo (Indigo, D-DAY, Jack In The Box) que são, individualmente, mais interessantes do que muitos álbuns de grupos inteiros. É uma subunidade de fato, mesmo sem o selo.

5. GOT7's Jay B, Jinyoung e Youngjae (o trio vocal-conceitual)

GOT7 nunca formalizou essa subunidade, mas os projetos paralelos desses três membros, tanto solos quanto colaborações, apontam para uma direção musical mais introspectiva e menos dependente do hype de fandom do que o grupo-mãe sustentava. Estou generalizando aqui porque a linha entre projeto solo e subunidade em GOT7 sempre foi tênue. Mas o ponto vale: quando esses três estão num contexto menor, a entrega vocal tem mais espaço e a identidade aparece com mais nitidez.

6. aespa's nævis (e o que a SM está construindo)

nævis é um caso diferente de tudo nessa lista. É uma entidade que começou como personagem virtual dentro do universo de lore da aespa e, a partir de 2024, ganhou presença musical própria. Incluo aqui não porque seja a mais sólida em discografia, mas porque é a aposta conceitual mais corajosa que uma grande empresa de K-pop fez nos últimos anos. É uma subunidade que existe no limite entre personagem e artista. Se funcionar como projeto de longo prazo, vai ser referência. Se não funcionar, vai ser um experimento caro e fascinante. De qualquer jeito, merece mais atenção crítica do que recebe.

E aqui no Brasil, dá para acompanhar?

A maior parte desse material está disponível no Spotify e no Apple Music sem restrição de região. Os álbuns físicos de EXO-CBX e dos projetos solo da rap-line do BTS chegam pelo Shopee e por lojas especializadas como a KpopDot e a Boa Loja, com preços que variam entre R$ 120 e R$ 250 dependendo da versão e do câmbio. Para os clipes, o YouTube ainda é o caminho mais completo, e a maioria tem legenda automática em português razoável para quem quer entender o contexto. nævis tem conteúdo espalhado entre o canal oficial da aespa e plataformas proprietárias da SM, o que torna o acompanhamento um pouco mais fragmentado, mas nada impossível.

O que essa lista diz sobre o K-pop hoje

Diz que o modelo de grupo grande com muitos membros cria oportunidades de nicho que o próprio grupo não consegue explorar. Subunidade bem executada não é sinal de crise interna: é sinal de maturidade criativa. O problema é que a indústria ainda trata subunidade como produto de fã, não como projeto artístico sério. Quando isso muda, a qualidade aparece. CBX é a prova mais clara disso.

Minha aposta pessoal: a próxima subunidade que vai surpreender vem de um grupo de quarta geração que ainda não formalizou o recorte. Tem muito quarteto de oito pessoas esperando descobrir que três deles têm química suficiente para um mini-álbum que o grupo inteiro nunca conseguiria fazer.