Toda vez que alguém fala em 'anime de herói', a conversa vai direto pro mesmo lugar: Meu Herói Acadêmico de um lado, One Punch Man do outro, e pronto, assunto encerrado. Confesso que fico com um frio no estômago quando isso acontece, porque existem obras inteiras que ficaram pelo caminho sem merecer esse apagamento.

Por que esses cinco? Critério explícito, sem mimimi

Eu montei essa lista com um recorte bem específico: animes que tiveram ao menos uma temporada completa, que tratam de identidade secreta, poderes ou vigilantismo como tema central, e que hoje em dia mal aparecem em conversas de fandom. Não estou aqui pra reabilitar qualquer coisa que foi ruim. Estou aqui pra dizer que esses cinco foram bons, alguns foram ótimos, e o esquecimento deles diz mais sobre o ciclo cruel de hype do que sobre qualidade.

1. Tiger e Bunny (Tiger and Bunny)

Lançado em 2011, com 25 episódios na primeira temporada, Tiger e Bunny foi, na minha opinião, o anime mais inteligente sobre o conceito de herói corporativo que já existiu antes de ser cool falar sobre isso. A premissa é genial: heróis são patrocinados por empresas reais, usam logomarcas nas armaduras e competem em um reality show. É uma sátira afiada do capitalismo filtrada por uma bromance improvável entre um veterano cansado e um novato arrogante. A Netflix trouxe uma segunda temporada em 2022, o que prova que a obra tem fôlego, mas o fandom BR nunca deu a ela o espaço que merecia. É o número um da minha lista porque combina humor, coração e crítica social sem forçar nenhum dos três.

2. Serei um Vilão (Mahou Shoujo Site)

Espera, eu sei o que você está pensando, mas me ouça. Bungo Stray Dogs de lado, vou falar de Hamatora (2014), que explorava detetives com habilidades únicas chamadas 'Minimum' numa cidade futurista. Dois episódios e você já está viciado na dinâmica entre Nice e Murasaki. O anime teve duas temporadas, nunca foi um fenômeno, e hoje quase ninguém menciona. É uma pena porque a construção de mundo era corajosa e o visual, muito mais elaborado do que a maioria das produções do mesmo período. Vou ser honesta: ele tem lá seus tropeços de roteiro no segundo arco, mas o núcleo emocional da série compensa qualquer irregularidade.

3. Concrete Revolutio, O Super-Humano Lendário (Concrete Revolutio: Choujin Gensou)

Esse é o mais difícil de defender pra quem não assistiu, mas é justamente por isso que eu precisava colocar aqui. Exibido em 2015 e 2016, Concrete Revolutio embaralha a linha do tempo de propósito, mistura tokusatsu, magia, robôs gigantes e crítica ao militarismo japonês do pós-guerra numa estrutura não-linear que exige atenção. É o tipo de anime que a maioria abandona no terceiro episódio por achar confuso, mas quem persiste encontra uma das alegorias políticas mais ricas da década. Nunca vi outro anime usar o gênero de super-heróis como espelho da identidade nacional de um jeito tão desconfortável e necessário. Merecia um fandom inteiro dedicado só a ele.

4. Os Cavaleiros do Zodíaco: A Alma do Ouro (Saint Seiya: Soul of Gold)

Sim, eu sei que Cavaleiros do Zodíaco tem um fandom enorme no Brasil, um dos maiores do mundo inclusive. Mas A Alma do Ouro, a série de 2015 com 13 episódios focada nos Cavaleiros de Ouro que morreram em Asgard, foi praticamente ignorada até pelo próprio fandom. Assisti na época e fiquei impressionada com o quanto ela tentava algo diferente dentro do universo: personagens secundários ganhando protagonismo, uma narrativa mais contida. Não é perfeita, mas era exatamente o tipo de expansão que o fandom dizia querer e, quando chegou, ninguém quis. Aqui no Brasil dá pra encontrar em algumas plataformas via VPN ou em coleções físicas de importação, com preços que variam bastante dependendo da edição.

5. Os Heróis Mascarados (Samurai Flamenco)

Lançado em 2013 com 22 episódios, Samurai Flamenco (que eu traduzo como Os Heróis Mascarados por ser o sentido mais direto pro público BR) é provavelmente o mais polarizador desta lista. Começa como uma comédia realista sobre um modelo que resolve virar herói sem poderes, só com força de vontade e muito constrangimento, e em determinado momento faz uma virada de roteiro que até hoje divide opiniões. Eu sou do time que ama essa virada. Ela é absurda, é corajosa, e revela que a obra sempre foi sobre o que significa acreditar em heroísmo num mundo que ri de você por isso. Confesso que reassisti partes dele no ano passado e ainda me pega.

E aqui no Brasil, dá pra assistir?

Essa é sempre a parte mais frustrante de escrever sobre animes esquecidos. Tiger e Bunny está disponível na Netflix BR, o que é uma vitória real. Hamatora circula em plataformas com catálogo de nicho e dá pra encontrar dublado em alguns canais no YouTube com qualidade razoável. Os outros três exigem um pouco mais de esforço: Crunchyroll tem parte do catálogo, mas Concrete Revolutio e Samurai Flamenco dependem de disponibilidade regional que muda com frequência. O fandom BR de nicho ainda mantém grupos ativos no Discord onde circulam informações sobre onde assistir legalmente cada um. Vale procurar.

Minha aposta pessoal é que Tiger e Bunny vai ter um revival de fandom nos próximos dois anos, especialmente com a segunda temporada ainda fresca na memória de quem descobriu pela Netflix. Os outros quatro dependem de alguém com coragem editorial de trazer de volta. Quem sabe uma plataforma não lê essa coluna? E você: tem algum anime de herói esquecido que eu não coloquei aqui e que você defende até hoje? Me conta nos comentários, porque essa conversa não pode parar por aqui.