Todo dorama tem um. Cabelo impecável, carro importado, olhar de quem nunca esperou na fila. O herdeiro chaebol é quase uma lei da física nos k-dramas, e eu precisava falar sobre isso.
O que é um chaebol, afinal?
Chaebol é um conglomerado familiar de grande escala que domina setores inteiros da economia coreana. Não é uma empresa, é um império com sobrenome. Samsung, Hyundai, LG, Lotte: todas são chaebols, e juntas respondem por uma fatia desproporcional do PIB sul-coreano. O modelo surgiu com força nos anos 1960 e 1970, quando o governo Park Chung-hee canalizou crédito estatal para grupos familiares específicos em troca de industrialização acelerada. O resultado foi crescimento econômico real e uma concentração de poder igualmente real. Hoje, estima-se que o grupo Samsung sozinho já representou mais de 20% das exportações do país em alguns anos. Isso não é detalhe de trivia: é o motivo pelo qual o chaebol vive no imaginário coreano com uma ambiguidade tão densa. É admiração e ressentimento ao mesmo tempo.
Por que a ficção coreana é obcecada com herdeiros?
Vou ser honesta: quando comecei a mapear esse padrão nos dramas, achei que era preguiça criativa. Depois entendi que é espelho. O herdeiro chaebol nos doramas não existe porque os roteiristas faltaram à aula de originalidade. Ele existe porque a Coreia do Sul tem uma relação emocional muito específica com esses grupos: eles financiam o país, empregam famílias inteiras, e ao mesmo tempo protagonizam escândalos que vão de corrupção a sucessões conturbadas que viram manchete de jornal. A ficção pega essa tensão e transforma em romance, em thriller, em comédia de erros.
Pense em Goblin (2016): o protagonista não é exatamente um chaebol, mas a riqueza acumulada por séculos cumpre a mesma função dramática, colocar um personagem fora do alcance ordinário da vida e criar uma distância que o romance precisa vencer. Agora pense em Heirs (The Heirs, 2013), que é talvez o exemplo mais explícito do gênero: toda a trama gira em torno de quem vai herdar o conglomerado e quem vai amar quem dentro dessa estrutura de poder. O drama foi criticado por alguns pela leveza do roteiro, e eu concordo com parte da crítica, mas ele captura com precisão a ansiedade coreana em torno de sobrenome e herança. Em Vincenzo (2021), a virada é diferente: o antagonista principal é uma chaebol corrupta chamada Babel Group, e o prazer da narrativa vem de vê-la desmoronar. O arquétipo está lá, só invertido.
Existe diferença entre o chaebol real e o do dorama?
Existe, e é enorme. Nos dramas, o herdeiro é quase sempre redimível. Ele é arrogante no primeiro episódio, mas tem uma ferida de infância, uma mãe ausente, um pai tirano, e o amor de uma protagonista comum vai reorganizar suas prioridades. Na vida real, os processos de sucessão em chaebols envolvem disputas judiciais, acusações de desvio de recursos e heranças que chegam a casas decimais do PIB de países inteiros. A romantização não é acidental: ela cumpre uma função de catarse. O público assiste e imagina um mundo onde o poder pode ser domesticado pelo afeto.
Isso também explica por que o personagem da 'garota comum' é tão central nesses plots. Ela não é só interesse amoroso: ela é o vetor pelo qual o espectador entra naquele universo inacessível. É uma fantasia de mobilidade social embrulhada em drama de época ou comédia romântica contemporânea.
Quando o dorama subverte o arquétipo?
Os trabalhos mais interessantes dos últimos anos são exatamente os que usam o chaebol como ponto de partida e depois torcem a expectativa. My Mister (나의 아저씨, 2018) não tem herdeiro, mas tem a estrutura corporativa como antagonista silencioso, e é um dos dramas mais honestos sobre como o dinheiro organizado em torno de famílias poderosas esmaga pessoas comuns. Já Reborn Rich (재벌집 막내아들, 2022), com 16 episódios, coloca um funcionário traído dentro do corpo de um herdeiro via reencarnação e transforma isso em crítica às dinâmicas internas dessas famílias. Foi um dos dramas mais assistidos no serviço de streaming TVING naquele ano, e eu entendo o motivo: ele tem a fantasia do arquétipo e a consciência de que aquele mundo é podre.
E aqui no Brasil, onde assistir?
A maioria dos títulos que mencionei está disponível em plataformas acessíveis no Brasil. Goblin e My Mister estão na Netflix, com legendas em português. Reborn Rich está disponível na Viki, que tem plano gratuito com anúncios e plano pago em torno de R$ 25 mensais. The Heirs também circula na Viki e em outras plataformas de streaming asiático. Vincenzo está na Netflix. Para quem quer entender o arquétipo do chaebol de forma progressiva, minha sugestão de ordem seria: começa por Vincenzo para ver a crítica, depois vai para Reborn Rich para ver a fantasia com consciência, e fecha com My Mister para entender o que fica de fora quando o herdeiro não aparece.
Minha aposta é que o dorama coreano vai continuar usando o chaebol como estrutura porque ele ainda é, para a Coreia real, uma estrutura incontornável. O que vai mudar, e já está mudando, é o quanto a ficção tolera romantizá-lo sem questionar. Reborn Rich e séries do mesmo fôlego indicam que o público coreano quer as duas coisas ao mesmo tempo: a fantasia e a conta chegando no final.





