Bridgerton abriu uma porta que muita gente não sabia que existia dentro dela.

Confesso que entendo o fenômeno: a série da Netflix combina romance com tensão social, figurinos que parecem sonhos e aquela sensação deliciosa de que qualquer cena pode virar um olhar carregado de subentendido. O que eu quero te dizer, com toda convicção, é que o k-drama histórico, chamado de sageuk, faz isso há décadas, com mais camadas, mais tragédia e, na minha opinião, muito mais coragem dramática. A questão não é qual é melhor. É que você provavelmente está perdendo metade do prazer por não ter chegado lá ainda.

Se você ama o romance que respira tensão social

O primeiro nome que eu coloco na mesa é Jewel in the Palace, conhecido no Brasil pelo título original mesmo, ou às vezes como Dae Jang Geum. Estreou em 2003, tem 54 episódios e é o tipo de obra que redefiniu o que um sageuk podia fazer: colocou uma mulher no centro de uma corte Joseon onde ela não deveria existir como protagonista, e transformou culinária e medicina em ferramentas de poder e sobrevivência. A tensão política aqui não é decoração de cena, ela é o próprio motor da história. Se em Bridgerton você ficou obcecada com o jogo de aparências da sociedade londrina, em Jewel in the Palace você vai entender que a corte coreana do século XVI jogava esse jogo com stakes muito mais altos, literalmente de vida ou morte.

Para um perfil mais parecido com o romance de salão que Bridgerton entrega, eu indicaria Moon Lovers: Scarlet Heart Ryeo, de 2016, com 20 episódios. A premissa tem aquele elemento fantástico que não me envergonha nada admitir que adoro: uma mulher do século XXI acorda no período Goryeo e se vê cercada por príncipes que disputam o trono. Parece clichê escrito assim, mas a execução é densa, o elenco é comprometido e o romance central tem uma dor genuína que Bridgerton raramente alcança. Vou ser honesta: Moon Lovers é um dos dramas mais subavaliados da década passada, e o finale ainda me incomoda da forma certa, a forma que só uma boa tragédia consegue.

Se o que te prendeu foi o figurino e a estética

Aqui eu preciso falar de Mr. Queen, de 2020, que tem 20 episódios e foi um fenômeno de audiência na Coreia. A premissa também brinca com o elemento fantástico: um chef contemporâneo acorda no corpo de uma rainha da dinastia Joseon. O tom é mais leve do que Moon Lovers, tem muito humor, mas o que me impressionou foi a qualidade visual. Cada frame de palácio, cada hanbok, cada detalhe de produção parece pensado com cuidado de cinema. Se em Bridgerton você parava a cena pra admirar um vestido, em Mr. Queen você vai fazer o mesmo com a paleta de cores dos trajes reais. E por baixo da comédia existe uma crítica afiada sobre agência feminina dentro de instituições que foram construídas pra sufocar mulheres, o que na minha leitura faz dele um drama mais político do que parece na superfície.

Para quem quer algo mais sério na estética e na narrativa, The Red Sleeve, de 2021, com 17 episódios, é a minha aposta de coração. É a história de uma dama de companhia que resiste ao amor de um rei porque entende, com clareza rara pra uma protagonista de sageuk, o que significa abrir mão de si mesma por um trono. A fotografia tem uma paleta fria e contida que contrasta com a intensidade emocional de cada cena. Bridgerton celebra o amor que vence as convenções. The Red Sleeve pergunta se vale a pena vencer, e a que custo.

Se você precisa de intriga e conspiração além do romance

Não tem como não citar Kingdom, de 2019, disponível na Netflix com duas temporadas e um especial. Sei que zumbi + sageuk parece uma mistura estranha pra uma lista sobre Bridgerton, mas escuta: Kingdom é, no fundo, um drama político sobre quem controla o poder quando o poder está corrompido. O horror é o veículo, não o destino. Se o que te prendia em Bridgerton era o subplot da rainha, da aristocracia que manobra nos bastidores, Kingdom vai te dar isso multiplicado por dez, com uma produção que compete com qualquer coisa que Hollywood faz.

E pra quem quer ficar dentro do romance mas com mais veneno político, Flower of Evil não é sageuk, é contemporâneo, mas menciono porque entende do que estou falando: suspense psicológico com romance central fortíssimo, 16 episódios de 2020, e uma construção de tensão que Bridgerton na sua terceira temporada ainda está tentando aprender.

E aqui no Brasil, onde assistir?

A maioria dessas obras está acessível sem precisar garimpar muito. Kingdom e Mr. Queen estão na Netflix, que custa entre R$ 20,90 e R$ 44,90 por mês dependendo do plano em junho de 2026. Moon Lovers e The Red Sleeve estão disponíveis na Viki, plataforma especializada em conteúdo asiático, com plano padrão em torno de R$ 25 mensais. Jewel in the Palace, por ser mais antiga, circula em canais no YouTube com legendas em português, e vale a busca porque a legenda da comunidade brasileira de fãs é surpreendentemente boa.

Minha aposta pessoal, sem hesitar: se você vier de Bridgerton e assistir The Red Sleeve, vai entender por que parte do fandom de k-drama considera 2021 um dos melhores anos do sageuk moderno. É o tipo de drama que muda o que você espera de um romance em qualquer mídia.