Toda geração do K-pop tem um girl group que funciona como divisor de águas, não como mais um lançamento.
Vou ser honesta: essa coluna existe porque eu fico irritada com listas que jogam todos os grupos no mesmo balaio, como se Fin.K.L e aespa existissem no mesmo universo estético e respondessem às mesmas perguntas culturais. Não respondem. Cada grupo que vou mencionar aqui foi escolhido por um critério específico: ele não apenas fez sucesso, ele mudou o que as fãs e a indústria esperavam de um girl group. Isso é diferente de vender disco.
Mas o que significa 'definir uma geração', afinal?
Na minha opinião, definir uma geração é deixar um rastro que outros grupos precisam responder, seja copiando, seja se diferenciando. Quando um grupo chega e você sente que o padrão de comparação mudou, esse é o grupo. Com esse critério em mente, a seleção fica mais fácil e, ao mesmo tempo, mais difícil de defender, porque exige coragem para deixar favoritas de fora.
Primeira geração: S.E.S. e a pureza que construiu um modelo
S.E.S., formado em 1997 pela SM Entertainment, foi o primeiro girl group a transformar o modelo de trio pop em fenômeno de massa na Coreia. Elas não inventaram o K-pop feminino do zero, mas consolidaram uma estética de feminilidade cuidadosa, letras sobre primeiro amor e coreografias que priorizavam sincronismo delicado. Esse modelo virou manual. Quando Fin.K.L estreou em 1998 pela DSP Media, a referência implícita era S.E.S., e as duas passaram anos sendo comparadas como rivais de geração.
Confesso que prefiro S.E.S. como marco histórico precisamente porque elas chegaram antes e porque o som delas, especialmente o R&B suave de faixas como 'I'm Your Girl', tinha uma sofisticação que a maioria dos grupos femininos da época não arriscava.
Segunda geração: Wonder Girls, então SNSD, e a virada global
A segunda geração é a mais disputada em termos de argumento, e eu vou tomar partido aqui: Wonder Girls abriu a porta, mas foi Girls' Generation (SNSD) que redefiniu o que um girl group podia ser em escala global.
Wonder Girls lançou 'Nobody' em 2008 e chegou ao Billboard Hot 100 em 2009, uma posição histórica para K-pop na época. Isso foi real e importantíssimo. Mas SNSD, com nove integrantes e um projeto que misturava pop eletrônico, R&B e performance visual maximizada em 'Gee' (2009), criou um template de girl group que a indústria coreana ainda replica em 2026. Na minha avaliação, 'Gee' é a faixa mais influente da história do K-pop feminino, não pelo som em si, mas pelo que ela sinalizou: que um grupo feminino podia dominar charts, televisão e imaginário coletivo ao mesmo tempo sem precisar escolher entre fofo e competente.
Terceira geração: 2NE1 e 4Minute, ou como o feminino virou atitude
A terceira geração chegou com a proposta de subverter o que a segunda geração havia construído. 2NE1, da YG Entertainment, estreou em 2009 e em 2012 já acumulava prêmios no MAMA e uma estética que combinava hip-hop, punk e eletrônico de um jeito que nenhum grupo feminino havia ousado antes. Elas não precisavam parecer delicadas para vender.
Esse movimento abriu caminho para que a terceira geração inteira experimentasse com conceitos mais agressivos. BLACKPINK, que estreou em 2016 também pela YG, é herdeira direta dessa linhagem, e elas foram o grupo que levou esse legado para o mainstream global de verdade: foram o primeiro girl group de K-pop a se apresentar no Coachella, em 2019, e 'DDU-DU DDU-DU' foi o MV de K-pop feminino mais assistido no YouTube por anos.
Quarta geração: aespa e a aposta no universo expandido
A quarta geração, que começa por volta de 2019 e 2020, é marcada por uma fragmentação de estilos que torna impossível apontar um único grupo como definidor absoluto. Mas se eu precisar escolher um grupo que apostou em algo genuinamente novo, a resposta é aespa.
A SM lançou aespa em 2020 com uma proposta que misturava lore ficcional, avatares digitais e pop experimental. Pode parecer exagero de marketing, mas a execução musical sustentou o conceito: 'Black Mamba', 'Next Level' e 'Girls' são faixas que soam como nada que existia antes no K-pop feminino. O risco era alto, e funcionou.
E agora, com NewJeans?
NewJeans estreou em 2022 e fez algo que poucos grupos conseguem: simplificou tudo numa era de maximização. Faixas curtas, conceito Y2K, produção que bebia em R&B dos anos 90 e 2000, sem coreografias espetaculares como argumento central. Em 2023, 'Ditto' ficou semanas no topo do Gaon Chart e virou ponto de referência em discussões sobre o que seria a 'quinta geração'.
Vou ser honesta: ainda é cedo para saber se NewJeans vai ter a durabilidade histórica de SNSD ou 2NE1. Mas elas já fizeram o que define um grupo de geração: mudaram o que os outros precisam responder.
E no Brasil, onde acompanhar tudo isso?
A maioria dos MVs históricos mencionados aqui está no YouTube sem custo. Para doramas e conteúdos extras dos grupos, Viki e Prime Video têm catálogos relevantes, com assinaturas a partir de cerca de R$ 19 por mês. Álbuns físicos chegam via importadoras como KpopBR e Loja do BTS, com preços que variam bastante, mas costumam ficar entre R$ 120 e R$ 250 dependendo do grupo e da edição.
Minha aposta é que a história vai consagrar SNSD e 2NE1 como os dois polos que mais moldaram o K-pop feminino, e que as gerações seguintes serão lidas como variações em cima dessas duas matrizes. NewJeans é a exceção mais interessante, e é exatamente por isso que eu fico de olho.





