Tem gente que ainda acha que gostar de K-pop é fase de adolescente. Eu ouço isso desde 2011 e cá estou.

Vou ser honesta logo de cara: hallyu é o conceito que eu mais repito no PopSeoul e o que eu mais vejo sendo mal explicado fora da nossa bolha. Então hoje eu quero fazer direito. Não como verbete de enciclopédia, mas como alguém que acompanhou esse movimento crescer, errar, se reinventar e chegar onde chegou.

O que é hallyu, afinal?

Hallyu, pronuncia-se 'hal-liu', significa literalmente 'onda coreana' em mandarim. O termo surgiu na imprensa chinesa no final dos anos 1990 para descrever a popularidade repentina de dramas e músicas sul-coreanas no leste asiático. Mas o que começou como uma curiosidade regional virou, nas últimas duas décadas, um dos fenômenos culturais mais estudados e rentáveis do mundo.

A definição curta: hallyu é a exportação sistemática da cultura pop da Coreia do Sul, incluindo música, dramas, cinema, gastronomia, beleza e idioma. A definição real, na minha opinião, é mais interessante: hallyu é a prova de que cultura pode ser política externa, e que produto bem feito não tem fronteira.

Como isso começou? Não foi por acaso

Eu sempre fico irritada quando alguém trata o sucesso coreano como sorte ou acidente. Não foi. Depois da crise financeira asiática de 1997, o governo sul-coreano tomou uma decisão estratégica: investir em indústrias criativas como alavanca econômica. Criaram ministérios, fundos, programas de formação e incentivos para exportar entretenimento. O K-drama foi o primeiro grande vetor: séries como 'Jewel in the Palace' (no Brasil conhecida também pelo nome original 'Dae Jang Geum') viraram fenômeno na Ásia e no Oriente Médio nos anos 2000.

O K-pop veio logo atrás, com uma estrutura de formação de artistas que não existe em nenhum outro lugar do mundo da mesma forma: os famosos sistemas de trainee, onde jovens passam anos aprendendo canto, dança, idiomas e performance antes de debutar. Pode-se discutir os custos humanos disso, e eu acho que é uma discussão necessária. Mas o resultado em termos de produto é inegável.

E quando o mundo fora da Ásia acordou para isso?

Na minha linha do tempo pessoal, o divisor de águas foi 2012, com 'Gangnam Style' do PSY quebrando o YouTube e chegando ao número 2 da Billboard Hot 100. Foi o primeiro K-pop a entrar de verdade no radar ocidental, mesmo que na época muita gente tratasse como meme. Eu me lembro de ter que explicar para colegas que aquilo não era um fenômeno isolado, que havia todo um ecossistema por trás.

Aí vieram o BTS com 'DNA' em 2017, depois o BLACKPINK, e o mundo parou de questionar. Para o cinema, o marco incontestável foi 2020: 'Parasita' (Parasite, 2019) ganhou quatro Oscars, incluindo Melhor Filme, sendo o primeiro filme em língua não inglesa a vencer nessa categoria em 92 anos de premiação. Dois anos depois, 'Round 6' se tornou a série mais assistida da história da Netflix até aquele momento, com mais de 111 milhões de contas assistindo nas primeiras quatro semanas. Esses não são números que se fabricam com marketing. É produto que funciona.

Mas o que faz a cultura coreana prender tanto?

Essa é a pergunta que eu mais gosto de responder. Confesso que passei anos tentando racionalizar o que me fisgou primeiro, que foi um drama chamado 'Goblin' (título original: Goblin, The Lonely and Great God) lá em 2016. E cheguei a algumas conclusões.

Primeiro: a Coreia sabe combinar universalidade emocional com especificidade cultural. Você não precisa entender hierarquia confuciana para sentir o peso de uma cena de separação em 'Pousando no Amor'. Mas quando você entende, a cena fica três vezes mais rica. Esse duplo nível de leitura é raro e valioso.

Segundo: a estética é levada a sério em tudo. Do packaging de álbum de K-pop ao guarda-roupa de um drama de época, tem gente obcecada com detalhe. Isso cria uma experiência que justifica o engajamento.

Terceiro, e vou ser direta: a Coreia entregou protagonistas complexos numa época em que o entretenimento ocidental mainstream estava entediante demais. Enquanto algumas indústrias repetiam fórmulas, os dramas coreanos experimentavam com narrativa e os grupos de K-pop construíam universos ficcionais inteiros ao redor da música.

E aqui no Brasil, como o hallyu chegou e onde está hoje?

O fandom brasileiro de K-pop e K-drama é um dos maiores e mais ativos do mundo, e eu digo isso com orgulho e com dados. O Brasil consistentemente aparece entre os países com mais streams de grupos coreanos no Spotify e mais tweets durante comebacks. Não é exagero: é uma comunidade que organiza, produz conteúdo e consome com uma intensidade impressionante.

Para quem quer entrar agora em 2026, o acesso está mais fácil do que nunca. A Netflix tem um catálogo robusto de doramas com legendas em português, e séries como 'Round 6' e 'Pousando no Amor' estão ali disponíveis. A Viki tem um acervo ainda maior, com plano gratuito com anúncios ou assinatura a partir de cerca de R$ 25 por mês. Para K-pop, o Spotify tem tudo, e para quem quer ir além das músicas e entender o universo dos grupos, o Weverse é o aplicativo oficial onde fandoms se organizam globalmente.

Hallyu é passageiro ou veio para ficar?

Olha, eu já ouvi essa pergunta em 2013, em 2018 e ouço em 2026. E a resposta continua sendo a mesma: uma indústria que gerou mais de 12 bilhões de dólares em exportações culturais num único ano não some da noite para o dia. Hallyu pode se transformar, vai se transformar, mas a infraestrutura está construída. As novas gerações de artistas coreanos já nascem num sistema que sabe como chegar ao mundo.

Minha aposta pessoal é que o próximo grande capítulo do hallyu vai ser o webtoon, os quadrinhos digitais coreanos que já estão virando dramas e animações com velocidade impressionante. Vai por mim.

E você, o que foi que te fisgou na cultura coreana? Foi um drama, uma música, um filme? Me conta nos comentários, porque essa conversa eu nunca me canso de ter.