Tem série que desperdiça ouro sem perceber, e Jujutsu Kaisen é campeã nisso.
Vou ser honesta: eu amo JJK de um jeito que às vezes me irrita. Porque quando a obra acerta, ela acerta feio. Mas quando ela decide jogar fora personagens que tinham potencial de sobra, eu fico aqui no meu canto remoendo por semanas. A segunda temporada, exibida entre 2023 e 2024, foi especialmente cruel nesse sentido: entregou arcos brilhantes para alguns e empurrou outros para o limbo narrativo. Esta lista é a minha vingança editorial. Escolhi os seis personagens que, na minha opinião, mereciam um arco inteiro dedicado a eles, com critério claro: profundidade de backstory sugerida mas nunca explorada, relevância temática para o universo da série e impacto emocional desperdiçado. Bora.
Os seis que a série deixou na mão
1. Kento Nanami
Nanami é, disparado, o personagem mais completo que JJK já criou e que menos recebeu o que merecia em termos de tela. Ele carrega toda a crítica ao sistema, ao mundo do trabalho, à ideia de vocação forçada, e isso aparece em flashes geniais durante o arco de Shibuya. Mas são só flashes. Eu queria ver o Nanami jovem saindo do colegial de Jujutsu, vivendo anos como salariyman comum, e o momento exato em que ele decide voltar. Esse arco seria uma obra sobre escolha, sobre cansaço e sobre o que significa ser adulto num mundo absurdo. É o personagem mais humano da série e foi tratado como coadjuvante glorificado. A morte dele em Shibuya dói justamente porque a gente sabe que a história toda dele estava só na superfície.
2. Mei Mei
Mei Mei é fascinante e perturbadora de um jeito que a série nunca se comprometeu a explorar de verdade. Ela opera com uma lógica completamente mercantil numa obra que deveria questionar isso, e esse contraste é ouro narrativo puro. A relação com o irmão Ui Ui levanta questões sérias que o mangá deixa suspensas no ar. Qual é a história dessa mulher? O que a formou assim? Eu teria assistido dez episódios só sobre ela sem piscar. O problema é que JJK a usa como dispositivo de plot quando precisam de alguém competente, e some com ela logo depois. Desperdício com D maiúsculo.
3. Yuki Tsukumo
Uma das cinco feiticeiras especiais do Japão, um dos níveis máximos de poder dentro da hierarquia da série, e a gente mal sabe o que ela pensa de verdade antes de ela sumir do jogo. Yuki tem uma filosofia própria sobre como resolver o problema das maldições, filosofia que diverge do establishment e que poderia ter gerado um arco político e ideológico riquíssimo. Confesso que quando ela entrou em cena pela primeira vez, eu fiquei animadíssima achando que a série ia finalmente explorar o lado institucional do mundo dos feiticeiros. Não explorou. Ficou no esboço.
4. Suguru Geto
Sim, eu sei que Geto aparece bastante, especialmente no filme Jujutsu Kaisen 0 (2021). Mas justamente por isso eu incluo ele aqui: porque esse filme prova que tem material para muito mais. A queda de Geto, a transição de aluno idealista para vilão com lógica própria, é uma das jornadas mais ricas que anime já esboçou nos últimos anos. O que me frustra é que o grosso dessa transformação acontece fora de cena, no tempo que passa entre o filme e a série. Eu queria assistir esse processo em tempo real, episódio a episódio, vendo cada rachadura abrir nele. Seria um estudo de radicalização com a profundidade que o tema merece.
5. Aoi Todo
Todo é tratado como alívio cômico com picos de badassery, e tudo bem, ele funciona nisso. Mas tem uma camada embaixo que a série espertamente sugere e nunca puxa: a obsessão dele por Takada-chan como mecanismo de conexão emocional, a solidão de alguém com poder absurdo e inteligência fora do padrão que não encontra par. A amizade dele com Itadori em Kyoto é um dos momentos mais genuínos da série inteira. Imagina um arco inteiro construído em cima dessa dinâmica, desse cara que decide quem merece respeito com base em gosto musical? Tem comédia, tem coração, tem filosofia torta. Ninguém aproveitou esse potencial direito.
6. Choso
Choso entrou como antagonista e se transformou numa das figuras mais emocionalmente complexas da série quase sem querer. A questão dele sobre identidade, sobre o que é ser humano quando você é meio maldição meio feiticeiro, sobre amor fraternal que atravessa toda lógica de lealdade política, isso é material nobre. Ele muda de lado por amor, e a série deixa isso acontecer rápido demais, sem deixar a gente respirar dentro dessa transformação. Um arco dedicado ao ponto de vista de Choso, desde a criação dele até a decisão de proteger Itadori, teria sido algo que o fandom br estaria discutindo até hoje.
E aqui no Brasil, onde a gente acompanha tudo isso?
Jujutsu Kaisen está disponível completo na Crunchyroll, que no Brasil custa a partir de R$ 19,90 por mês, e é lá que a comunidade brasileira vive. O fandom br é enorme, vai por mim: grupos de discussão, threads no Twitter e no Bluesky bombando a cada novo capítulo do mangá ou anúncio de temporada. O filme Jujutsu Kaisen 0 também está na plataforma e é leitura obrigatória antes de qualquer conversa sobre Geto. Se você ainda não assistiu, tá perdendo contexto fundamental.
Minha aposta pessoal é que, se a adaptação animada continuar, pelo menos parte do potencial de Choso vai ser aproveitado. Mas Nanami, Yuki e Mei Mei já foram, e essa janela fechou. É o tipo de perda que fica. E você, qual personagem de JJK te deu mais raiva de ver desperdiçado? Me conta nos comentários, porque esse assunto não acaba aqui.




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