Tem uma cena que eu não consigo tirar da cabeça: uma mulher descobre que o marido é, na verdade, filho da sua rival de infância, que também é a mãe adotiva do bebê que ela perdeu num incêndio criminoso há vinte anos.

Eu ri. Depois assisti mais dois episódios sem piscar.

Isso é makjang. E se você já assistiu qualquer dorama de família coreano nas últimas décadas, você já foi fisgado por ele, quer soubesse o nome ou não.

O que é makjang, afinal?

Makjang é um termo coreano que vem da expressão mak, que indica algo levado ao extremo, ao limite, ao ponto de ruptura. Na prática, é um estilo narrativo que empilha situações melodramáticas, moralmente questionáveis e logicamente improváveis com uma intensidade que desafia qualquer senso de realismo. Traição conjugal, identidade secreta, doenças terminais surgindo no pior momento possível, vilões que sabem tudo mas fazem nada, e aquela cena clássica de escuta acidental no corredor do hospital. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo.

O gênero existe formalmente na televisão coreana desde pelo menos os anos 1990, mas foi nas soap operas diárias e nos dramas de família exibidos aos fins de semana que ele se consolidou como uma linguagem própria. Obras como Temptation of Wife (2008) e Flames of Desire (2010) são referências clássicas do gênero: cada uma com mais de 150 episódios, audiências recordes e enredos que fariam qualquer roteirista de novela brasileira se sentar com um caderno de anotações.

Por que a gente continua assistindo mesmo achando absurdo?

Vou ser honesta: o makjang funciona porque ele não tenta te convencer de que é realista. Ele faz o oposto. Ele estabelece um pacto com o espectador desde o primeiro episódio: aqui as regras do mundo real estão suspensas, e nós dois sabemos disso. Quando você aceita esse pacto, cada reviravolta não gera incredulidade, gera antecipação. Você não pensa 'isso não aconteceria'. Você pensa 'quanto tempo até essa bomba explodir?'

Existe também um prazer muito específico em ver o excesso validado pela tela. O makjang externaliza emoções que a vida cotidiana obriga a gente a reprimir. A personagem não fica com raiva, ela vira a mesa do jantar. Ela não chora baixinho, ela desmaia no corredor do hospital com trilha sonora de cordas. Há um alívio catártico nisso que a psicologia do entretenimento leva a sério, e eu não tenho nenhuma vergonha de admitir que preciso dessa catarse às vezes.

Makjang aparece só nos dramas antigos?

Não, e esse é um ponto que eu acho importante deixar claro. Muita gente associa makjang exclusivamente aos dramas diários de emissoras como KBS e MBC, aqueles com 100 episódios e elenco de veteranos. Mas o estilo infiltrou produções mais recentes e bem-sucedidas de formas que a galera não percebe porque a embalagem é mais moderna.

The Penthouse: War in Life, exibido entre 2020 e 2021 em três temporadas, é talvez o exemplo mais evidente da última geração: produção de alto orçamento, elenco de primeiro escalão, e um roteiro que acumulou assassinatos, mortes fingidas, identidades trocadas e pelo menos duas ressurreições improváveis ao longo de 35 episódios. A série foi um fenômeno de audiência na Coreia e arrastou fandom global inteiro. Vincenzo, de 2021, tem elementos makjang na sua construção de vilões e nos turns de plot do último terço, mesmo sendo um híbrido com comédia e ação. Até produções da Netflix Korea flertam com o estilo quando precisam de tensão dramática rápida.

Como distinguir makjang de melodrama comum?

Melodrama é qualquer drama emocional com ênfase no sentimento. Makjang é melodrama que ultrapassou um certo limiar de incredulidade e voltou pra você como entretenimento puro. A diferença não é de intensidade, é de tom e de consciência. Um drama pode te fazer chorar de verdade com uma cena de despedida realista. Makjang te faz chorar E ao mesmo tempo enviar um print pro grupo com a legenda 'eu juro que essa mulher acabou de descobrir que é gêmea da sogra'.

O critério que eu uso: se a trama exige que dois ou mais personagens principais escondam informações cruciais por razões que só fazem sentido para avançar o plot, sem nenhuma lógica humana convincente, é makjang. Se a vilã usa salto alto em todas as cenas, incluindo num velório às seis da manhã, é makjang. Se você assistiu três episódios com a sobrancelha levantada e não consegue parar, definitivamente é makjang.

E aqui no Brasil, onde assistir?

O catálogo de makjang no Brasil ainda é fragmentado, mas está crescendo. The Penthouse está disponível no Viki, que cobra em torno de R$ 25 por mês no plano standard. Alguns títulos clássicos como Temptation of Wife aparecem esporadicamente no YouTube em canais de distribuidoras coreanas com legendas em inglês, o que exige um esforço extra de quem não tem o inglês fluente. A Rakuten Viki continua sendo o destino mais completo para quem quer explorar o gênero com legenda em português, embora a qualidade das traduções varie bastante dependendo da obra.

O que eu recomendo pra quem quer entrar no universo: comece pelo The Penthouse. É makjang com produção contemporânea, ritmo rápido e uma vilã, interpretada por Uhm Ki-joon, que é um estudo de caso sobre como fazer o mal parecer divertido de assistir. São 21 episódios na primeira temporada, e eu duvido que você pare no terceiro.

Minha aposta é que o makjang vai ganhar ainda mais espaço em plataformas globais nos próximos anos, especialmente à medida que o público ocidental percebe que o prazer culpado não precisa de desculpa. Às vezes o absurdo é exatamente o que você precisava.