Você conhece a música, conhece o grupo, mas provavelmente não sabe o nome de quem a construiu nota por nota.

Essa é a minha maior frustração com o jeito que o K-pop é consumido: o produtor fica invisível. A foto vai pro cartaz, o nome vai pro streaming, mas quem arquitetou aquele hook que ficou na sua cabeça por três semanas raramente aparece na conversa. Vou tentar mudar isso hoje, pelo menos aqui.

Deixo claro meu critério antes de começar: não estou listando os mais famosos de um jeito genérico. Estou falando dos produtores cujo trabalho eu consigo identificar pelo som antes de ver o crédito, aqueles que têm uma assinatura sônica reconhecível. Isso, pra mim, é o que separa um produtor lendário de um produtor competente.

Mas afinal, o que faz um produtor de K-pop?

No contexto do K-pop, produtor não é só quem aperta botão em estúdio. É quem concebe o conceito sonoro do projeto, seleciona ou compõe as faixas, define arranjos, muitas vezes escreve letras e ainda orienta a performance vocal. É uma figura mais próxima do que chamamos de produtor executivo criativo do que de técnico de mixagem. Alguns trabalham dentro de agências, outros são freelancers disputados por todas as grandes casas. E alguns, com o tempo, viraram instituições.

Teddy Park: o arquiteto do som da YG

Se eu tivesse que escolher um único produtor que moldou o K-pop moderno de forma mais duradoura, escolheria Teddy Park sem hesitar. Ex-integrante do grupo 1TYM nos anos 2000, ele migrou para a produção e passou a assinar praticamente tudo que saiu da YG Entertainment com relevância comercial. BLACKPINK? É ele. 2NE1? Também. Na minha opinião, 'Kill This Love', lançado em 2019, é o pico da sua fase com o BLACKPINK: uma estrutura que parece caótica mas é cirurgicamente calculada para explodir em cada transição. Teddy tem um jeito de usar silêncio e peso que eu não vejo em mais ninguém no gênero. O acúmulo de créditos dele em músicas que chegaram ao topo de charts internacionais é impressionante e, mesmo assim, a maioria dos fãs não saberia soletrar o sobrenome.

Pdogg: o homem por trás do universo BTS

Dentro da HYBE, Pdogg é o nome. Produtor e compositor que trabalhou lado a lado com o BTS desde os primeiros álbuns, ele foi um dos arquitetos do universo sonoro que levou o grupo a estádios de 90 mil pessoas. 'DNA', de 2017, foi um divisor de águas comercial para o K-pop fora da Ásia, e Pdogg está nos créditos. 'Fake Love', 'IDOL', 'Butter'... a lista é longa. O que me chama atenção no trabalho dele é a versatilidade controlada: ele não tem um único som, mas tem uma consistência de qualidade que é difícil de manter ao longo de uma discografia tão extensa quanto a do BTS. Isso exige mais do que talento, exige disciplina de ofício.

Ryan Jeon e o som da SM: precisão como estética

A SM Entertainment sempre teve uma abordagem quase clínica para pop, e Ryan Jeon é um dos nomes que encarna isso. Trabalhou em projetos do EXO e do NCT, dois grupos com propostas sônicas radicalmente diferentes, o que já diz muito sobre adaptabilidade. O NCT em particular é um caso fascinante de produção: as músicas são construídas em camadas que parecem densas demais para funcionar ao vivo, mas funcionam. Eu confesso que demorei para entender o apelo do NCT exatamente por isso. Quando entendi, foi porque parei de ouvir a superfície e comecei a ouvir a estrutura.

Os compositores globais que ninguém fala

Outro ponto que me incomoda: a narrativa de que o K-pop é 100% coreano. Produtores suecos, americanos e britânicos têm assinado faixas de grandes grupos há pelo menos quinze anos. A Roulette Music, de Estocolmo, tem créditos em hits de grupos de primeira linha. Alexander, do duo de produção sueco LDN Noise, trabalhou com SHINee e EXO. Isso não diminui o produto final, mas faz parte de entendê-lo honestamente. O K-pop sempre foi uma síntese global com embalagem e performance locais. Ignorar isso é romantizar o processo.

E aqui no Brasil, como você chega a esse universo?

A boa notícia é que o acesso nunca foi tão fácil. No Spotify e no Apple Music, praticamente toda a discografia dos grupos mencionados aqui está disponível, com planos a partir de R$ 11,90 por mês. Para quem quer ir além das músicas, o YouTube oficial das agências (HYBE Labels, YG Entertainment, SM Entertainment) disponibiliza MVs, documentários de bastidores e até algumas sessões de estúdio gratuitamente. O canal do HYBE no YouTube, por exemplo, tem material de making-of que mostra o processo de produção com uma transparência rara no mercado musical. Vale muito o tempo.

Para documentários mais aprofundados sobre o negócio do K-pop, o Disney+ tem tido conteúdo exclusivo de grupos como BTS, acessível no plano padrão da plataforma, que fica em torno de R$ 27,90 mensais. Não substitui um livro sobre produção musical, mas é uma entrada honesta para quem quer entender a máquina por trás do espetáculo.

Por que isso importa pra você como ouvinte?

Porque saber quem produziu uma música muda o jeito que você a ouve. Você começa a perceber padrões, a identificar uma voz criativa que atravessa discografias inteiras. É o mesmo raciocínio de assistir a um filme sabendo quem dirigiu: o diretor não aparece na tela, mas está em cada quadro. O produtor não aparece no palco, mas está em cada compasso.

Minha aposta pessoal é que os próximos dois anos vão trazer mais visibilidade para produtores independentes coreanos que estão construindo sons fora das três grandes agências. Já estou de olho, e quando tiver algo concreto para dizer, você vai ler aqui primeiro.