Tem conquista no K-pop que faz até artista veterano perder o fôlego: conseguir um all-kill.

Vou ser honesta: quando comecei a acompanhar charts coreanos de perto, achei que all-kill era apenas um jeito bonito de dizer 'número um'. Levei um tempo para entender que a lógica por trás desse conceito é muito mais específica, e que é exatamente essa especificidade que faz ele ser tão cobiçado. Então deixa eu explicar direito, do jeito que eu queria que alguém tivesse explicado pra mim.

O que exatamente é um all-kill?

All-kill é quando uma música ocupa simultaneamente o primeiro lugar em todos os principais charts de streaming e download da Coreia do Sul. Não basta ser número um no Melon. Tem que ser número um no Melon, no Genie, no Bugs, no FLO e em mais algumas plataformas menores que compõem o chamado 'instante de chart' coreano. Quando isso acontece ao mesmo tempo, em tempo real, chama-se 'real-time all-kill' ou PAK (Perfect All-Kill). Quando a música mantém o topo em todos esses serviços por um período mais longo e ainda entra no chart diário e semanal em primeiro, aí temos o que o fandom chama de 'certified all-kill'.

O site Gaon Chart, que funciona como o Billboard coreano desde 2010, é uma das referências usadas para validar esse tipo de conquista. A plataforma Melon, por sua vez, é historicamente a maior em número de usuários ativos na Coreia, então quem domina o Melon já tem meio caminho andado. O outro meio é convencer todo mundo ao mesmo tempo, e esse 'todo mundo' inclui usuários com gostos muito diferentes entre si.

Por que é tão difícil conseguir um?

Cada plataforma de streaming na Coreia tem uma base de usuário com perfil diferente. O Genie, por exemplo, tem forte presença de assinantes via planos de telefonia das operadoras locais, o que historicamente significou uma base mais ampla em termos de faixa etária. O Melon concentra muito do público jovem urbano. Quando uma música convence esses públicos simultaneamente, significa que ela cruzou bolhas, o que no K-pop é muito mais raro do que parece.

Confesso que, na minha opinião, o all-kill é um dos poucos indicadores de K-pop que ainda resiste a ser inflado artificialmente por streaming farm. Não que manipulação não exista: existe. Mas manter o primeiro lugar em múltiplas plataformas ao mesmo tempo, por horas seguidas, exige um volume real de pessoas ouvindo de forma orgânica. É por isso que quando um grupo estreante consegue um PAK, o impacto é genuíno: significa que a música saiu da bolha do fandom e atingiu o ouvinte casual.

Quem conseguiu e o que eles têm em comum?

BTS é o nome mais associado a all-kills consistentes. 'Dynamite', lançada em 2020, é um dos exemplos mais citados: foi a primeira música em inglês de um grupo coreano a debutar diretamente no número um da Billboard Hot 100, e no mercado doméstico a história não foi diferente. IU, que pra mim é uma das artistas mais completas do pop coreano, acumula all-kills com uma consistência que nenhum idol group chega perto. Ela tem uma base de fãs fiel e ao mesmo tempo agrada ao público geral de forma que poucos conseguem. Quando IU lança algo e imediatamente varre os charts, não é surpresa: é o resultado de uma trajetória de mais de quinze anos construída com critério.

O que me impressiona é que as músicas que conseguem all-kill quase sempre têm uma coisa em comum: elas são acessíveis sem serem simples. Têm um gancho melódico forte, produção cuidadosa e algo que prende mesmo quem não é fã declarado do artista.

BLACKPINK com 'How You Like That' em 2020 e aespa com 'Supernova' em 2024 também figuram nessa lista. No caso da aespa, foi especialmente simbólico porque marcou o grupo saindo de uma fase de resultados irregulares para uma das músicas mais discutidas do ano no mercado doméstico.

E no Brasil, como acompanhar essa corrida?

A maioria dos fãs brasileiros acompanha os charts em tempo real pelo Twitter/X, onde perfis especializados em tracking postam atualizações a cada hora durante a janela de lançamento de uma música. O site Chart'n'Chill e o próprio perfil do Gaon no Instagram são fontes diretas. Para ouvir as músicas nas plataformas que contam para o chart coreano, o acesso não é simples: Melon e Genie não têm planos disponíveis para cartões brasileiros com facilidade, embora seja possível criar conta com e-mail. Spotify e Apple Music, que a maioria dos brasileiros usa, não contam para o all-kill coreano, o que é uma informação que muita gente ignora. O streaming que você dá aqui no Brasil ajuda nos charts globais dessas plataformas, mas não move o ponteiro do PAK.

Em termos de preço, uma assinatura mensal no Melon gira em torno de 10.900 wons, o que em junho de 2026 equivale a aproximadamente 45 reais. Não é absurdo para quem quer participar de forma mais direta da contagem.

Ainda faz sentido o all-kill como métrica?

Tem gente no meio que argumenta que o all-kill perdeu relevância com a fragmentação do consumo musical global. Eu discordo. Justamente porque o K-pop se internacionalizou tanto, conseguir dominar o mercado doméstico coreano com uma única música virou algo mais raro e mais significativo. É o artista provando que ainda tem raiz, que não perdeu o contato com quem está em Seul ouvindo no metrô.

Minha aposta: nos próximos doze meses, o próximo all-kill que vai chamar atenção vai vir de um artista solo saído de um grupo grande, alguém com base de fã fiel mas que vai surpreender com uma música que funciona fora da bolha. Esse é o padrão que continua se repetindo, e eu estou de olho.