Entrar num restaurante coreano pela primeira vez pode ser assustador, e eu sei disso porque já fui aquela pessoa perdida no cardápio.

Confesso que na minha primeira vez eu pedi errado, fiquei com fome e saí achando que 'comida coreana não era pra mim'. Que erro. Hoje, depois de anos frequentando os restaurantes do Bom Retiro em São Paulo, de madrugadas no K-drama assistindo cenas de comida que me davam inveja e de umas boas viagens, eu montei um guia que eu gostaria de ter tido naquele dia. Não é lista genérica de 'top 10 pratos famosos'. É o que eu, de verdade, indicaria pra você na primeira visita, com critério.

Antes de tudo: o ritual dos banchan

Quando você se sentar, vão chegar pratinhos sem você pedir. Isso se chama banchan, os acompanhamentos, e é gratuito na maioria dos restaurantes. Kimchi, brotos de feijão temperados, espinafre com gergelim, ovo cozido. Na minha opinião, o nível do banchan já diz tudo sobre a cozinha do lugar. Se vier ressecado ou sem sabor, desconfie. Se vier variado e bem temperado, você está no lugar certo. Coma devagar, porque eles completam quando acaba, e isso é um costume que me encanta até hoje.

Os 6 pratos que eu indicaria pra você hoje

1. Bibimbap. É o prato mais democrático da culinária coreana e o melhor ponto de entrada. Arroz, legumes salteados, ovo e pasta de pimenta gochujang por cima. Você mistura tudo antes de comer, o nome literalmente significa 'arroz misturado'. Peça a versão dolsot, que vem na tigela de pedra quente: a casquinha de arroz que forma no fundo, chamada nurungji, é uma das melhores texturas que a comida coreana oferece. Dado concreto que vale saber: o bibimbap de Jeonju, cidade no sudoeste da Coreia, é reconhecido como patrimônio cultural desde 2015 pela cidade, e tem mais de 30 ingredientes na versão tradicional.

2. Sundubu jjigae. Traduzindo: ensopado de tofu macio. É picante, é vermelho, é reconfortante de um jeito que poucos pratos do mundo conseguem ser. O tofu aqui é diferente do que você conhece: cremoso, quase líquido, e ele absorve todo o caldo. Vem com ovo cru pra cozinhar dentro da panelinha ainda borbulhando. Na minha opinião, esse é o prato mais subestimado da cozinha coreana fora da Coreia, e as pessoas que pulam por medo do tofu estão perdendo muito. Peça com carne de porco na primeira vez, é a combinação mais equilibrada.

3. Samgyeopsal. Sim, o famoso churrasco coreano de barriga de porco. Mas eu vou ser honesta: ele não é meu favorito pessoal no dia a dia. O que me conquistou de vez foi a forma de comer. Você pega a carne grelhada, coloca numa folha de alface ou perilla, adiciona pasta de ssamjang, alho assado, cebolinha, fecha e come de uma vez. Esse pacotinho se chama ssam. O ritual em volta da refeição, as pessoas montando o próprio ssam, conversando, bebendo soju, é onde o samgyeopsal brilha. O prato é social antes de ser gastronômico.

4. Japchae. Macarrão de batata-doce translúcido, salteado com legumes e carne, temperado com shoyu e óleo de gergelim. É um prato de festa na Coreia, servido em aniversários e celebrações. A textura é elástica e escorregadia de um jeito que vicia. Vou ser honesta: japchae frio, no dia seguinte, direto da geladeira, é uma das melhores coisas que já comi na vida. Se sobrar, guarde.

5. Tteokbokki. Bolinhos de arroz em molho de gochujang. Se você já assistiu a qualquer dorama passado em escola ou mercado de rua, você já viu esse prato. A textura do tteok, o bolinho, é mastigável e densa, nada parecido com o que estamos acostumados. O molho é picante e adocicado ao mesmo tempo. Nos restaurantes brasileiros costuma vir menos picante do que na Coreia, então não se preocupe tanto. Peça como entrada ou acompanhamento, não como prato principal.

6. Haemul pajeon. Panqueca coreana com frutos do mar e cebolinha. Crocante por fora, macia por dentro, servida com molho de shoyu com vinagre. É o prato que eu peço quando quero algo menos intenso mas igualmente honesto. Existe uma lenda na Coreia de que cheiro de pajeon fritando lembra cheiro de chuva, e tem até uma expressão cultural em volta disso. Poético demais pra não mencionar.

E aqui no Brasil, onde você encontra tudo isso?

São Paulo tem o maior polo de restaurantes coreanos do país, concentrado no Bom Retiro e arredores. Restaurantes como o Biwon, aberto desde os anos 1980, e várias opções mais novas ao redor da Rua Couto de Magalhães são ponto de partida seguro. No Rio, a oferta cresceu nos últimos dois anos, especialmente em Botafogo. Os preços variam: um bibimbap fica entre R$ 45 e R$ 70 dependendo do lugar, e o samgyeopsal por pessoa costuma sair entre R$ 60 e R$ 90 incluindo os acompanhamentos. Fora do eixo SP-RJ, vale pesquisar associações da comunidade coreana local, que muitas vezes organizam feiras de comida, especialmente em maio, mês das festividades culturais coreanas no Brasil.

Uma dica extra que ninguém te conta: peça água quente ou chá de cevada (boricha) em vez de refrigerante. É gratuito na maioria dos lugares e combina melhor com a comida.

Minha aposta pessoal

Se eu pudesse te mandar com um único pedido, seria o sundubu jjigae. Ele resume o que a comida coreana tem de melhor: profundidade de sabor, textura inesperada e aquele calor que parece abraço. Vai por mim, você vai sair falando sobre ele pra todo mundo.

E você, já foi a algum restaurante coreano? Me conta nos comentários qual foi o prato que te conquistou, ou me diz se ainda está em dúvida que eu te ajudo a escolher.