Vender dez milhões de cópias e não ganhar um daesang dói de um jeito diferente no K-pop.
Eu acompanho cerimônias de premiação coreanas há tempo suficiente para perceber que nenhum outro marcador divide tanto a indústria quanto esse. Não é número de streams, não é quantidade de fãs no Twitter, não é nem o tamanho do estádio que você lota. Daesang é outra conversa, e vou explicar exatamente por quê eu penso assim.
Afinal, o que é um daesang?
Daesang significa, literalmente, 'grande prêmio' em coreano: 대상. É o equivalente ao prêmio máximo de uma cerimônia, acima de todos os troféus por categoria. Quando alguém ganha um daesang, não está levando 'melhor álbum de pop' ou 'artista do mês'. Está levando o reconhecimento de que, naquele ciclo, aquele artista ou grupo foi o mais relevante da indústria inteira.
As principais cerimônias que concedem daesangs são os quatro grandes: Melon Music Awards, Mnet Asian Music Awards (MAMA), Golden Disc Awards e Seoul Music Awards. Cada uma tem seus próprios critérios, que combinam vendas físicas, streaming, votos de fãs e, em alguns casos, avaliação de um corpo de jurados da indústria. É essa combinação que torna o daesang difícil de manipular, pelo menos mais difícil do que um simples ranking de Hanteo.
Por que ele pesa mais do que um álbum com cinco milhões de cópias?
Confesso que essa é a parte que mais me interessa discutir, porque é onde o senso comum falha. Vender muito é mérito real, mas no K-pop de 2026 vender é também uma questão de estrutura: fandom organizado, múltiplas versões de álbum, estratégias de pré-venda. Grupos com fandoms enormes conseguem números astronômicos mesmo com músicas que a indústria não leva a sério como obra.
O daesang, na teoria, tenta capturar algo além disso. Ele observa presença cultural, não só capacidade de mobilização de fã. Na prática, não é perfeito, e eu sei disso. Mas quando um artista ganha nas quatro cerimônias principais no mesmo ano, algo aconteceu que vai além de fandom. BTS fez isso em 2018 e 2019. BLACKPINK chegou perto em 2022. Aespa e IVE disputaram cada centímetro desse espaço em 2023 e 2024.
Na minha opinião, o daesang ainda é o único marcador do K-pop que tenta, mesmo que imperfeitamente, separar impacto cultural de força bruta de fandom, e isso o torna insubstituível como referência histórica.
Tem daesang que gera polêmica, tem daesang que vira consenso
Vou ser honesta: nem todo daesang é recebido com reverência. A edição de 2023 do MAMA teve uma das maiores discussões dos últimos anos justamente sobre quem merecia o prêmio máximo. Isso não enfraquece o prêmio: reforça que ele importa o suficiente para gerar debate sério.
O que me chama atenção é que os daesangs que viram consenso histórico são quase sempre os de artistas que tinham algo a dizer além do produto. Quando se fala no daesang de álbum do ano que BTS levou em 2018 com 'Love Yourself: Tear', ninguém discute. Quando se fala no daesang de artista do ano de 2NE1 em 2011, é história. Esses prêmios ficaram porque representaram um momento real da cultura, não só um ciclo de vendas bem gerenciado.
E aqui no Brasil, onde você acompanha tudo isso?
As cerimônias de daesang têm transmissão acessível para o público brasileiro, principalmente via YouTube oficial dos eventos. O canal do MAMA Awards transmite ao vivo gratuitamente, e o mesmo vale para o Melon Music Awards. O Golden Disc Awards também costuma ter transmissão no YouTube, com delay mínimo para o fuso horário brasileiro, que fica entre 13h e 16h no horário de Brasília dependendo da época do ano.
Para quem quer acompanhar os resultados em tempo real sem ficar acordado de madrugada, perfis especializados no Twitter e no Bluesky fazem cobertura ao vivo com tradução, e vários deles são brasileiros. O custo é zero, o que é raro para um evento dessa escala.
Se você quiser entender o histórico de daesangs, o site oficial do Gaon Chart mantém registros desde 2010 com dados verificáveis de cada premiação, incluindo os critérios de pontuação daquele ano. É a fonte primária que eu uso quando preciso checar se uma afirmação sobre o passado faz sentido ou é lenda de fandom.
Ganhar ou não ganhar muda a trajetória de um grupo?
Muda, e de formas que nem sempre são visíveis imediatamente. Grupos que nunca ganharam um daesang carregam essa ausência como uma marca não oficial de 'ainda não chegou lá', mesmo tendo vendas impressionantes. Já grupos que ganharam cedo, como EXO, que levou daesangs consecutivos entre 2013 e 2017, estabeleceram um patamar de prestígio que sustentou a narrativa deles por anos depois, mesmo quando os números começaram a oscilar.
Existe também o fenômeno inverso: artistas que ganharam um daesang de forma controversa e tiveram dificuldade de sustentar a narrativa depois. O prêmio abre portas, mas não faz o trabalho que a obra precisa fazer.
Minha aposta para os próximos ciclos é que o daesang vai continuar sendo o divisor de águas justamente porque a indústria coreana, por mais que mude, ainda precisa de um marcador que funcione como câmara de validação. Os números podem ser fabricados, os daesangs também têm suas distorções, mas a disputa em torno deles conta a história real do K-pop melhor do que qualquer gráfico de vendas.





